Com crescimento de homicídios, sensação de insegurança persiste

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RIO – Ela aproveitou a hora do almoço para sair às pressas do supermercado onde trabalhava, na Tijuca. Precisava, em um intervalo de uma hora, enfrentar fila de banco, sacar dinheiro e fazer algumas compras numa papelaria. Ágil, Valdiza Mota Souza, de 60 anos, conseguiu completar suas tarefas, mas não voltou para casa. Foi morta por bandidos que tentavam assaltar a loja onde estava, justamente no momento em que se dirigia para a porta. Baleada no peito, Valdiza entrou para a estatística de homicídios dolosos cometidos mês passado no estado. Números do Instituto de Segurança Pública (ISP) divulgados nesta quinta-feira mostram que, mesmo sob intervenção federal desde fevereiro, o Rio continua enfrentando uma escalada de mortes violentas.

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Em abril, o total de homicídios dolosos cresceu 8,9% em relação ao mesmo mês do ano passado. No total, foram 475 casos — 39 a mais. Na mesma comparação, o indicador de letalidade violenta, que reúne, além dos homicídios dolosos, os decorrentes de intervenção policial, latrocínio e lesões corporais seguidas de morte, aumentou quase 10%. Foram 592 casos, contra 539 em 2017. As mortes ocorridas durante confrontos com a polícia tiveram um incremento de 26%, na mesma comparação.

O balanço do ISP revelou que também houve ganhos no período. Os roubos de celulares caíram 16,5% em abril, em relação ao mesmo mês do ano passado. Os de veículos tiveram uma melhora de 4,8%, e os de carga, reduziram 13,6%. Mas, diante de tantas vidas perdidas, os indicadores que registraram avanços não foram suficientes para resgatar a combalida sensação de segurança da população, que ficou chocada, nos últimos dias, com o assassinato de Soraia Macedo, de 17 anos, baleada na cabeça mesmo após ter entregue seu celular a bandidos na Ilha do Governador; com o caso de um bebê de 6 meses baleado no colo da mãe dentro de um colégio no Cosme Velho, e com a morte de um idoso na Rocinha, atingido por bala perdida.

Índices de criminalidade no Rio
Na comparação mês a mês, roubos caíram e mortes aumentaram
Fonte: ISP
*Reúne homocídios dolosos, homicídios em decorrência
de intervenção policial, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte

Índices de criminalidade
no Rio
Na comparação mês a mês,
roubos caíram e mortes aumentaram
Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

SENSAÇÃO DE INSEGURANÇA PERMANECE

Para especialistas em segurança pública ouvidos pelo GLOBO, a intervenção federal ainda não teve sucesso no combate à violência, alimentada não só pelo incremento de mortes violentas, mas pela explosão de tiroteios e arrastões. De acordo com o site Fogo Cruzado, a Região Metropolitana registrou 2.309 tiroteios desde que o presidente Michel Temer decretou a intervenção (foram 1.842 nos três meses imediatamente anteriores). Ao todo, desde que o decreto de intervenção foi assinado, 27 pessoas foram atingidas por balas perdidas, e três morreram.

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— O carioca está desesperado, desanimado. Essa sensação de frustração aumenta toda a sensibilidade negativa em relação à violência — avalia a professora de criminologia da UniRio Elizabeth Sussekind, que diz que a intervenção não poderia, num período curto, reduzir os homicídios. — As promessas da intervenção não foram bem medidas, e ela não poderia mesmo entregar esse tipo de redução (de mortes violentas). O que ela poderia entregar, e não entregou, era um controle maior de fronteiras no Rio, um alívio nos tiroteios, menos invasões de comunidades. Só isso.

Para a cientista social Silvia Ramos, coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) da Universidade Candido Mendes e integrante do Observatório da Intervenção Federal, a situação do Rio continua preocupante.

— Após três meses de intervenção, a análise de indicadores de distintas fontes revela que a violência continua em níveis muito preocupantes. O comando da intervenção não fez as mudanças prometidas, pelo contrário, alguns padrões históricos das políticas de segurança se agravaram, como a manutenção das operações policiais violentas, as violações aos direitos dos moradores de favelas e a corrupção — opina Silvia.

‘Depois de três meses de intervenção, a análise de indicadores revela que a violência continua em níveis muito preocupantes’

– Silvia RamosCientista social

A especialista defende que é preciso comparar os meses sob vigência da intervenção com os imediatamente anteriores, nos quais o estado se via acometido por uma violência sem precedentes.

— Nós olhamos mais para a comparação com os meses anteriores ao decreto, pois, em 2017, atingimos uma curva máxima de violência em anos. E essa violência chegou a níveis altíssimos em dezembro, janeiro e fevereiro. Então, esperava-se um alívio em março e abril — pondera Silvia.

O mês de abril, por exemplo, registrou mais casos de alguns crimes do que janeiro, o único mês do ano que não teve qualquer ação da intervenção, já que ela ainda não havia sido decretada. Foi o caso dos homicídios, que no primeiro mês do ano chegaram a 469. Roubos a aparelhos celulares também subiram, segundo esse parâmetro — 2.103, em abril, contra 2.053, em janeiro). Outras ocorrências melhoraram na mesma comparação de períodos: foram os casos dos roubos a transeuntes (7.602 contra 7.829) e roubos de carga (892 em abril, e 977 em janeiro).

Em nota, o Gabinete de Intervenção Federal informou que “está empenhado em reduzir progressivamente os índices de criminalidade”. Além disso, afirmou que os “dados divulgados comprovam que as medidas emergenciais e estruturantes que vêm sendo tomadas estão surtindo efeito”. Índices que impactam diretamente na sensação de segurança da população — caso do roubo de veículo, roubo de carga e roubos de rua — apresentam redução em abril”.

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Fonte: https://oglobo.globo.com/rio/com-crescimento-de-homicidios-sensacao-de-inseguranca-persiste-22693411

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