Número reduzido de bibliotecas públicas e horário comercial afastam cariocas da leitura

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Programador e escritor, Guilherme Fraenkel, de 43 anos, mora bem do lado da Biblioteca Parque da Rocinha, mas hoje em dia não frequenta mais o espaço. É que a unidade fechou em 2017 e reabriu no ano seguinte só em dias úteis e horário comercial, das 8h às 18h, o que dificulta que um trabalhador frequente esses espaços. Esse é um dos obstáculos que cariocas enfrentam para ter acesso a literatura no Rio.

— Trabalho na Fiocruz e não chegou antes de 18h30 na Rocinha. Eu ia (à Biblioteca Parque)quinzenalmente. Recentemente consegui voltar lá, depois de muito tempo. Foi muito bom, mas senti uma dor enorme no coração: a manutenção do prédio está muito precária e o pouco que está sendo realizado é graças ao esforço da equipe que está trabalhando lá — conta.

Entre unidades federais, estaduais e municipais, a cidade tem, registrados no Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, do Ministério da Cultura, 16 espaços — entre eles, locais importantes como a Biblioteca Nacional e três bibliotecas parques (veja a lista completa abaixo à direita). Isso significa que, no município do Rio, existe uma biblioteca pública para cada 418 mil pessoas. A média nacional é de um desses equipamentos por cada 30 mil habitantes. Já nos Estados Unidos, há um para cada 19 mil pessoas.

— Temos aqui três perfis de frequentadores: aqueles que vêm usar os computadores, os que buscam um lugar para estudar e os que querem livros emprestados — conta Alessandra Passos, bibliotecária gerente da Marques Rebelo, uma das maiores unidades municipais da cidade, na Tijuca.

A frequência do público nas bibliotecas municipais — que também funcionam apenas em dias úteis e horário comercial — tem caído sem que a rede tenha diminuído. Em 2017, a média mensal de empréstimo de livros era de 1.592 por mês em 2017 e caiu para 1.444, em 2018. Neste ano, foram emprestadas mensalmente, até abril, 1.400 obras, em média.

Rio de janeiro – CI – 22/11/2012 – Bibliotecas Parque de Manguinhos e da Rocinha. Na foto, a biblioteca parque da Rocinha. Foto Rafael Moraes/ Extra Foto: Rafael Moraes

Violência tirou unidade da Praça Seca

A rede de bibliotecas da prefeitura é a mais bem distribuída pela cidade, possibilitando que pessoas de mais bairros possam frequentar esses espaços. Só no ano passado, 113.798 estiveram nas unidades. No entanto, a leitura perdeu para a violência na Praça Seca. A Biblioteca Cecília Meireles precisou sair do seu antigo endereço por conta da disputa entre traficantes e milicianos pelo Morro São José Operários.

— Estamos aqui por enquanto, mas em breve teremos um novo prédio e poderemos voltar a atender mais — conta Altamira Carvalho, de 60 anos, bibliotecária do local.

A unidade ficava na rua de acesso ao morro e não era raro que se vissem “bondes” (grupos de bandidos armados) passando. Até eventos com alunos precisaram ser cancelados por falta de segurança.

Atualmente, a biblioteca está funcionando provisoriamente numa salinha no terreno da Lona Cultural Jacob do Bandolim. Por ser ainda pouco conhecida na região, o número de empréstimos caiu de 976 em 2017 para 219 em 2018.

— Aos poucos, os frequentadores antigos estão descobrindo que estamos aqui e estão voltando — diz Altamira.

Uma a cada dez escolas sem sala de leitura

A dificuldade de acesso à literatura está dentro da escola também. Um a cada dez colégios municipais (207 das 1.540) não tem biblioteca nem sala de recursos (onde professores trabalham com crianças especiais ou com altas habilidades e que dispõe de livros).

A Secretaria municipal de Educação disse que “disponibiliza seu acervo em 14 bibliotecas escolas municipais, distribuídas por todas as regiões” e que, onde não há sala de leitura, “há acervo literário e de pesquisa à disposição dos alunos”. O motivo para ausência de sala de leitura é o fato de todas estarem ocupadas por turmas em aula.

Confira a lista de bibliotecas públicas no Rio, separadas por bairro:

Benfica

  • Biblioteca-Parque de Manguinhos: Avenida Dom Hélder Câmara, 1.184 – Benfica

Botafogo

  • Biblioteca Popular Municipal Machado de Assis: Rua Farani, 53 – Botafogo
  • Biblioteca Infanto Juvenil da Casa de Rui Barbosa: Maria Mazzeti – Rua São Clement, 134 – Botafogo

Campo Grande

  • Biblioteca Popular Municipal Ignácio da Silva Alvarenga: Praça Thelmo Gonçalves Maia, s/n – Campo Grande

Centro

  • Biblioteca Nacional: Avenida Rio Branco, 219 – Centro
  • Biblioteca Pública Euclides da Cunha: Rua da Imprensa, 16 – 4º andar – Palácio Gustavo Capanema – Centro
  • Biblioteca Parque Estadual: Avenida Presidene Vargas, 1262 – Centro

Gamboa

  • Biblioteca Popular da Gamboa José Bonifácio: Rua Pedro Ernesto, 80 – Gamboa

Guandu

  • Biblioteca Popular Fernando Sabino: Guandu – Rua 12, Conj. Guandu I, s/n, Qd. 219 -Guandu I

Ilha do Governador

  • Biblioteca Popular Municipal da Ilha do Governador: Euclides da Cunha – Praça Danaídes, s/n – Cocotá

Irajá

  • Biblioteca Popular Municipal João do Rio: Avenida Monsenhor Félix, 512 – Irajá

Maré

  • Biblioteca Popular Municipal Jorge Amado: Rua Ivanildo Alves, s/n – Maré

Praça Seca

  • Biblioteca Pública Municipal Cecília Meireles: Rua Doutor Bernardino, 218 – Praça Seca

Rocinha

  • Biblioteca-Parque da Rocinha: Estrada da Gávea, 454 – Rocinha

Santa Teresa

  • Biblioteca Popular Municipal de Santa Teresa: Rua Monte Alegre, 306 – Santa Teresa

Tijuca

  • Biblioteca Popular Marques Rebelo: Rua Guapeni, 61 – Tijuca





Fonte: https://oreporter.news/noticias/rio/numero-reduzido-de-bibliotecas-publicas-horario-comercial-afastam-cariocas-da-leitura-23757962.html