Prefeitura conta com apenas três Postos de Orientação Urbanística e Social para monitorar 1.018 favelas

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RIO — O Rio tem 1.018 comunidades, mas hoje só há três Postos de Orientação Urbanística e Social (Pousos) para monitorá-las. Cada um conta com um engenheiro ou um arquiteto, mas, sem poderes para embargar uma obra, eles se limitam a acompanhar a situação da Chácara do Céu, no Leblon; do Morro Azul, no Flamengo, e do Parque Royal, na Ilha do Governador. A cidade chegou a ter 33 Pousos, criados em 1996, que atingiram seu auge em 2009, quando atendiam a 66 favelas.

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Hoje, de acordo com associações de moradores, os poucos Pousos que restam funcionam de maneira precária. Líder comunitário do Parque Royal, Antônio Carlos Silva conta que um engenheiro vai três vezes por semana à comunidade. Segundo ele, o representante da prefeitura se limita a dar orientações sobre obras.

— Tem gente construindo imóveis de seis andares aqui — diz Antônio Carlos.


Paulo César Ferreira, integrante da diretoria da Associação de Moradores da Chácara do Céu, afirma que a última vez que viu alguém trabalhando no Pouso da região foi em dezembro do ano passado:

— O representante da prefeitura deu um número de telefone para ligarmos em caso de necessidade.

Vice-presidente da Associação de Moradores do Morro Azul, Gilmar Silva diz que o responsável pelo Pouso que atende à comunidade dá expediente no local duas vezes por semana:

— Mas ele só fica no posto, não faz rondas.

A Secretaria municipal de Infraestrutura e Habitação garante que os Pousos serão reestruturados este semestre —terão reformas e reforço de pessoal. O órgão promete ainda que Borel, Caju, Floresta da Barra (no Itanhangá), Mata Machado, Vidigal, Fernão Cardim e Vila São Jorge voltarão a ser atendidos pelo programa.

Seis garis, 5 mil pessoas

José Mário Hilário, presidente da Associação de Moradores do Morro Dona Marta, em Botafogo, lamenta que o imóvel do Pouso da comunidade, alugado, tenha virado um depósito de bebidas:

— A comunidade cresceu, e a rede de esgoto não dá conta. Acabaram com o gari comunitário (
o programa está sendo desativado, por ordem judicial
). Tínhamos 30 trabalhadores comunitários, hoje são seis garis para 5 mil moradores. É humanamente impossível dar conta da limpeza.

O Vidigal, mesmo beneficiado pelo Favela-Bairro, tem uma rede de esgoto insuficiente. Um valão corre atrás da sede da associação de moradores e de um posto de saúde. Depois do temporal da última quarta-feira, a podóloga Eva Costa, que sempre se incomodou com o saneamento precário, ganhou mais uma preocupação: o risco de deslizamento na encosta perto de sua casa.

— Pedimos uma avaliação da Defesa Civil. Espero que seja feita antes de outra tragédia.

Marcos Valério Alves, presidente da Associação de Moradores da Favela Nova Brasília, no Complexo do Alemão, também tem motivos para fazer queixas. A comunidade está com muitos bueiros entupidos ou sem tampas, rachaduras e buracos no asfalto de suas ruas e vários pontos de esgoto a céu aberto.


O arquiteto e urbanista Washington Fajardo destaca que falta uma política habitacional que possa inibir o crescimento de favelas no Rio.

— O Minha Casa Minha Vida não é solução. O modelo é errado. São construídos conjuntos de má qualidade e distantes de locais onde há trabalho e serviços. Há terrenos públicos em áreas centrais que podem ser aproveitados, criando opções de moradia principalmente para os mais jovens, a fim de que eles saiam das comunidades — diz Fajardo, acrescentando que viver numa favela bem localizada não é solução. — Mesmo que se faça urbanização, a população fica eternamente tutelada pelo estado, que não conta com braço para atendê-la.

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A GeoRio diz que tem cem funcionários fazendo o monitoramento das favelas. Já a Comlurb afirma que faz coleta diária em todas, com cerca de 1.200 garis, além de 700 trabalhadores comunitários ainda não substituídos em 250 favelas. Em relação ao Dona Marta, alega que tem uma equipe de 10 garis atuando diariamente.

Já a Secretaria de Conservação e Meio Ambiente frisa que, em 2018, a Rio Águas investiu R$ 56 milhões em manutenção de redes de esgoto, drenagem e pavimentação. A Cedae, responsável pelo abastecimento de água em todas as favelas e pelo esgoto nas comunidades com UPPs, não se pronunciou.





Fonte: https://oglobo.globo.com/rio/prefeitura-conta-com-apenas-tres-postos-de-orientacao-urbanistica-social-para-monitorar-1018-favelas-23442133