Não se deve crer em deus que não saiba dançar – Jornal CORREIO

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Fiquei extático, quase colapsei, quando assisti ao notável bailarino argentino Jorge Donn (1947-1992). Eram os anos 1980 e nos sentávamos – eu e meu querido e amado amigo-irmão Manoel José Ferreira de Carvalho (1951-2005) – na fila Z3, do Teatro Castro Alves, nesta Salvadores, bem looonge do palco. Mas a grandeza e o tour-de-force do artista eram tamanhos que usufruíamos e captávamos todo o esplendor da performance como se estivéssemos sentados nas primeiras filas, onde se concentrava a fina flor da sociedade soteropolitana.

Esfuziante, Jorge Donn dançava coreografia de quase 10 minutos, concebida com maestria por Maurice Bejart, e ‘incendiada’ pelo som do ‘Bolero’, de Maurice Ravel (1875-1937). Era beleza demais para um homem de quase 30 anos ávido pela transcendência que a grande arte nos proporciona. Voltamos para casa, eu e Manoel José, em estado de graça. Levei horas para dormir. As imagens deslumbrantes desse triunvirato de craques se mantiveram acesas na minha mente até alta madrugada – e, devo admitir, até o momento em que ora escrevo este texto.

[No momento em que me extasiava com essa coreografia, alguém que se chamaria, décadas depois, Ruy Cesar Cruz navegava pelo éter da inexistência, ocupava a alma de outra pessoa – ou apenas jazia imerso e obscuro na imensidão oca e vazia].

A coreografia de Maurice Bejart era esplendorosa.  O que mais me impressionou foi o jogo de cintura – expressão talvez inadequada para se referir a espetáculos de balé – que o fazia bambolear freneticamente sem que tivesse bambolê algum a bamboleá-lo. ‘Um assombro’ comentei com meu amigo Manoel. Ele assentiu.

[Rio de Janeiro. 13 de julho de 2019. Assisto em teatro localizado em shopping center do bairro do Meyer a apresentação de final de semestre de escola de dança da Ilha do Governador. Fui com prazer. Minha sobrinha-neta – e musa – se apresentava em grupo de sapateado. Ela brilhou. [Mas meus olhos se deixaram abduzir, de fato, minutos depois, por outro jogo de cintura que só flagrara em Jorge Donn].

Em coreografia solo – ao som de trecho curto de A Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky (1862-1971) – jovem negro de 17 anos me hipnotizou e me eletrizou. Nascido em cidade pobre da Baixada Fluminense, foi trazido para o Rio de Janeiro quando criança, e adotado e nutrido pelo Grupo Cultural de Dança da Ilha. Desde então, mora em pequeno quarto anexo à escola na qual aprendeu a dançar. [Em poucos anos, o menino mirrado, quase famélico, agarrou o espírito de corpo e de alma da dança e se transformou em bailarino promissor – e bota promissor nisso].

Neste ano foi escolhido o melhor bailarino do Festival Internacional de Porto Alegre – e ganhou bolsa de estudos para cursar escola de dança em Nova York, onde passará a morar. Se depender do dom de Ruy Cesar Cruz, o mundo verá brilhar dançarino de escol, espécie de Jorge Donn oriundo de uma das comunidades mais miseráveis das cercanias do Rio de Janeiro. Ele tem tudo para chegar lá, no topo do mundo. Tomara que chegue. Oxalá!





Fonte: https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/nao-se-deve-crer-em-deus-que-nao-saiba-dancar/